segunda-feira, 17 de março de 2014

Agonia

Ah, saudade, por quê me fazes sofrer,
Fazendo-me gritar no silêncio desconfortante da indiferença?
Por que ainda os grilhões que me oprimem não foram tirados de mim?
Diante à incumbência de viver trancafiado dentro dos meus medos,
Sem ao menos dar-me ao prazer de dizer tudo o que penso, vivo.
Vivo, ou melhor, tento - já que a falta da sensatez,
É o pagamento do grito que permeia a calmaria
Que me obriga a dá-lo sem ao menos confortar-me
Nos deleites insepultos da verdadeira paixão.
Ah, saudade, saudade.
Não me firas mais, porque aqui jaz um amante desolado.

- Heitor Dávila

sábado, 4 de janeiro de 2014

Apenas mais uma de amor

Mais uma vez, me sento para escrever sobre amor e dor. Uma dupla inseparável, caminhando uma ao lado da outra, circundando corações apaixonados. Hoje, em mim, não sobrou nada além das cicatrizes que ambos deixaram.

Jogado no fundo do armário existe aquela caixinha com todas as lembranças materiais. E ainda que algo grite dentro de mim "Não faça isso!" a única coisa que consigo pensar é em relembrar os momentos bons. Afinal mesmo lutando para guardar somente os ruins, apenas os melhores permanecem. Todas dentro daquela caixa de madeira trancadas com um cadeado.

E mesmo sem perceber, instantes depois, me pego encarando as melhores lembranças junto dele. Lá dentro haviam cartas que ele me mandara durante anos, declarando seu amor e fazendo promessas. Havia também milhares e milhares de fotos, momentos inesquecíveis e de tamanha felicidade que agora se transformaram em um simples passado que não volta mais. Flores secas e bilhetes de cinema, ursinhos de pelúcia e jóias, porta-retratos e até mesmo algumas roupas que, ao exalar seu perfume, fizeram meu coração apertar. Mas percebo que relembrar todo esse sofrimento e revivê-lo milhares e milhares de vezes faz com que eu me sinta viva novamente. Me fazem pensar que eu fui forte o suficiente para encarar a dor de perder o amor da minha vida e me reerguer com um sorriso no rosto, mesmo que falso. Como um desabafo que precisa ser dito uma última vez para então ser esquecido para sempre. Como o último suspiro que tem de ser dado antes da morte.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Promessas

Sempre me fizera tantas promessas, lembro-me da primeira assim como lembro-me de todas as outras. Nosso amor seria eterno. Me prometeu o sol, a lua e as estrelas. Me prometeu felicidade, amor, cumplicidade. Prometeu também que nunca haveriam brigas ou discussões. Me prometeu tardes preguiçosas e passeios longos. Me prometeu andar na praia de mãos dadas, ver o pôr do sol e caminhar sem rumo. Me prometeu escrever cartas de amor, buquê de flores e café da manhã na cama. Prometeu também fazer cafuné, massagem. Cantar uma música aqui, outra ali, ninar e cuidar do meu sono. Prometeu me pedir em noivado quando eu fizesse 18. Me prometeu um casamento à beira da praia, iluminado com velas, rodeado por flores. Me prometeu lua de mel em Fernando de Noronha. Me prometeu uma casa beira-mar e 4 filhos. Me prometeu conforto e tranquilidade. Prometeu que envelheceríamos juntos. Prometeu que morreria ao meu lado. Mas na verdade o que morreu foram todas essas promessas, junto com nosso amor.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Um conto real

Fico rindo ao pensar em você. É que além de você ser um palhaço fez um capítulo da minha vida ser uma grande comédia, cheia de lembranças boas que me despertam sorrisos. Fico imaginando eu contando para as minhas filhas e netas como foi que conheci o meu primeiro namorado: "Eu o conheci numa viagem que fiz ao Rio de Janeiro, posso dizer que foi amor à primeira vista mesmo que naquele primeiro momento eu não quisesse ouvir os sussurros cansados do coração. Mas quando o amor chega, mesmo que o coração esteja cansado e sem voz, ele brada tão alto que é impossível não ouvir, e do alto do arpoador, vendo o sol nascer, eu descobri que estava apaixonada. Mas nesse mesmo dia eu viria embora para Curitiba e senti um medo gigantesco ao pensar que talvez eu nunca mais fosse vê-lo, e tendo o sol e as águas como testemunhas da minha desolação eu chorei. Não deixei com aquele moço apenas as minhas palavras marcadas em uma carta, deixei também meu coração naquele abraço de despedida. Porém nenhum sentimento é em vão, o destino gosta de pregar peças e brincar com a gente, mas gosta de deixar marcas independente do tom sarcástico que usa nos acontecimento da nossa vida. Então, dezenove dias depois que eu voltei para casa, ele me pediu em namoro e foi o momento mais emocionante da minha vida até aquele dia. Sempre achei que sonhos não tinham relação com a realidade, que fantasias não podiam sair do campo abstrato para o concreto, mas o destino,  que sempre adorou deixar marcas em mim, me provou o contrário. A partir daí eu comecei a escrever um milhão de poesias pra ele, mas ele nunca leu uma palavra se quer. Comecei a sufocar ele com o meu sentimentalismo e quem quase morreu de falta de ar fui eu mesma. É, não durou. Namoramos a distância durante um mês e cinco dias, mas resolvi ser corajosa e não maquiar o ponto de final de reticências. Escrevi o ponto final e fim. Terminei nossa história, porque estava enlouquecendo tanto eu quanto ele. Foi melhor assim. Nunca vou esquecê-lo, ele foi um capítulo bonito da minha história. Ele era um príncipe que não virou sapo, mas nossa história não era um conto de fadas para ter um final feliz. Porque contos de fadas não existem e se existissem eu não seria destinada princesa. Nunca nos beijamos, não tivemos um namoro comum, mas eu sempre fugi dos padrões mesmo e meu primeiro namoro foi a minha cara. Perfeito pra mim. Foram trinta e cinco dias de muita paixão, de sentimentalismo em excesso, eram dias que transbordavam, declarações, músicas e dois corações batendo no mesmo compasso. Fomos tão intensos quanto Romeu e Julieta, mas antes que um de nós nos matasse resolvi transformar o drama em comédia romântica. E por fim nossa história até pareceu um pouco com as minhas histórias de livro." As menininhas ainda ingênuas e inocentes, sem cicatrizes e frustrações, sorririam com os olhos brilhando e cresceriam com a certeza de que uma história não precisa ter um final feliz ou um "felizes para sempre" para ser intensa e bonita. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Ser

Ela tinha uma necessidade absurda de cuidar, de mimar, de amar, e nem precisava que fosse recíproco. Ela cuidava sem receber cuidados. Mimava sem ser mimada. Ela amava mesmo sem receber um pingo de amor. E não importava, porque tudo que ela precisava era ver os outros sorrirem, ela amava colecionar sorrisos alheios. 
Todas as noites ela pedia a Deus que cuidasse dele, que não deixasse que nada no mundo abalasse a sua felicidade e tirasse dele aquele sorriso. Ela gostava de sorrisos, sobretudo do dele. 
Ele era complicado, era mesmo, mas ela amava cada pontinho de complexidade que nele habitava. Ele se contradizia o tempo todo, mas só de vez em quando. Era o oposto, o invés, o revés dele mesmo. Ele era um anjo que infernizava a vida dela e ela adorava essa confusão. 
Ela o amava sim, e tinha uma vontade imensa de cuidar dele, de fazê-lo sorrir, de secar suas lágrimas se preciso fosse. Ela queria poder abraça-lo toda vez que ele dizia estar triste. Queria poder solucionar todos os problemas que o atormentavam. É que ela tinha uma mania louca de querer abraçar o mundo esquecendo que seus braços eram curtos demais. 
Ela gostava de se doar, porque cuidar dos outros era seu jeitinho de cuidar de si mesma. 
Ela gostava de amar, porque dentro do seu coração tinha amor para dar, doar e doer. Ela se importava com os outros, porque sempre sentira que sua missão era fazer os outros felizes. Ela aprendeu que para que outros pudessem sorrir, valia a pena chorar. Pra que outros pudessem ser salvos, valia a pena morrer um pouquinho. Tudo valia a pena se ela pudesse ser recompensada com sorrisos. Só isso, mais nada. 
Então ela ia cuidando, amando, se doando. Porque esse era o seu prazer. Essa era a sua paixão. Essa era a sua fórmula para ser feliz.
E o tal anjo que ela amava podia até não se importar com ela, o mundo podia até rir dela, os outros podiam até tentar derruba-la, mas nada disso importava, nada disso a atingia, porque ela tinha encontrado a força, o consolo, o amor e a felicidade naquEle que entendia de sofrimento mais do que ninguém. NaquEle que amou mais do que todo mundo. NaquEle que se doou e se doeu até por quem nem existia. E com Ele ela caminhava. O exemplo dEle ela seguia. Os Seus conselhos ela ouvia. E nos braços dEle ela se apoiava para que nada no mundo conseguisse derrubá-la. E Ele a segurava e dava esperanças, Ele a mantinha forte e feliz. E nEle ela aprendeu a ser uma só.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Senti(n)do

Sempre caminhei sozinha na contramão da vida, percorrendo uma estrada cheia de utopias. Sempre sem direção certa, desgovernada em minhas andanças, porque sou feita de contradições e inconstâncias. 
Gosto de caminhar para frente, correndo rumo a uma estrada nova, mas vez ou outra preciso voltar para trás e resgatar alguns momentos na estrada da memória. 
E voltando eu me perco e me perdendo eu me encontro. São nos contrários de mim que mora o encanto. 
Não sou feita de medidas exatas, ainda não aprendi a me dosar. Sou muito, sou tudo, é tanto Eu que preciso me doar.
Uma louca desvairada que caminha calma e desesperada. Me encho de tudo, me encho de nada, e vou transbordando meus acúmulos e vazios no decorrer da estrada. 
Preferi a estrada mais longa, caminho na emoção e não na razão. Em cada curva vivo uma loucura, em cada esquina encontro uma contradição. 
São nas dúvidas que encontro minhas certezas. É através do cinza que começo a pintar um arco-íris. É na dor e na solidão que encontro o amor e a paixão. Uma explosão de contradição, é assim que pulsa o meu coração.
A menina que em mim habita nunca fez sentido, mas sempre foi mestre na arte de viver sentindo. Se na faculdade da vida ela só tivesse que amar, com certeza seria uma aluna exemplar. Mas, infelizmente, na matéria de fazer as coisas darem certo ela acabou de reprovar. 
Ela já foi muito corajosa, destemida, inquieta e se os sentimentos fossem esportes radicais ela seria uma grande atleta. Mas o amor é semelhante ao bungee jump e ela já sofreu alguns acidentes. Feriu seu coração e traumatizou a sua mente. 
A menina que caminhava sozinha na contramão da vida hoje caminha perdida, com medo, querendo mudar a direção, desejando percorrer uma estrada sem curvas e sem nenhuma frustração. A matéria de amar ela desistiu de estudar e de bungee jump ela não tem mais coragem de pular. 
É que a pobre menina bebeu doses de complexidade altas demais para uma só vida e os fardos da realidade lhe causaram muitas feridas. 
Hoje ela já não se arrisca sem temor, porque a menina tem mais medo do amor do que de filme de terror.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Reticências

Nunca soube lidar com começos, assim como nunca soube lidar com meios e fins. A verdade é que eu sou do tipo que não sabe lidar com a vida.
Não sei ao certo em que momento você começou a ser o meu ponto de paz, minha fonte de alegrias, o motivo dos meus sorrisos bobos. Não sei quando foi que eu me descuidei e deixei você habitar o meu coração. Eu achei que estivesse bem trancado, então como você entrou, menino? 
Acho que é verdade aquela história de que os sentimentos superam todas as barreiras e obstáculos. Não adianta trancar as portas e fechar as janelas, nem mesmo ignorar as batidas e os chamados, o sentimento vai lá e passa pelo vãozinho da fechadura se necessário e de repente se instala dentro do seu coração. Logo você se acostuma com a presença dele lá dentro, até que um dia você percebe que ele já é uma parte de você. 
E quando eu vi aquele olhar eu tive a certeza de que estava apaixonada. Aquele olhar que ainda não me pertencia, mas eu gostava de acreditar que sim. Ele não era meu, não inteiramente, mas eu estava aprendendo a lidar com frações. 
Eu que sempre fui poesia estava tendo que lidar com um sentimento extremamente matemático e diariamente eu tentava descobrir uma fórmula para transformar aquela fração em um número inteiro. O problema é que eu nunca fui boa com cálculos.
Eu gostaria de dizer que vivemos uma história de amor desde o "Era uma vez", mas não, vivemos uma história harmônica e fomos escrevendo os sentimentos conforme foram se passando os capítulos. Nossa história não teve um fim, está incompleta, e nós narradores-personagens só estamos sofrendo de insuficiência poética e para não danificar o enredo optamos por pausá-la. Eu ainda sonho com o dia que olharei para os seus olhos novamente e ainda sorrio só de pensar. Quem sabe nesse dia quando eu olhar bem no fundo dos seus olhos eu desvende os seus mistérios. Talvez seus olhos revelem seu coração e a sua alma. Quem sabe, com muita sorte, eu me encontre neles. 
Mas de tudo que você poderia ter sido, você preferiu ser um anjo. Um anjo que mesmo sem asas me ensinou a voar. Um anjo que me proporcionou um pedacinho do céu, pedacinho que foi o suficiente para me tornar infinita.
Hoje eu flutuo e a causa é você, que trouxe à minha vida paz em plenitude. E se hoje eu não perco o meu sorriso foi porque você deu a ele a imortalidade. Hoje meu sorriso é imortal, imortal como o seu encanto, meu anjo.